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3 edições. E agora?

Escrito em 18 Jun 2017

Fila para a entrada na primeira Maker Faire

Estávamos em 2013 e neste preciso e raro momento no tempo percebemos que o mundo tinha mudado. Em garagens, hackerspaces, escolas e Fablabs, um pouco por todo o Portugal, este movimento começava a fervilhar e atrair cada vez mais adeptos. Sentia-se entusiasmo e excitação no ar, características de quem não sabendo explicar bem como nem porquê, sabia perfeita e intuitivamente que fazia parte de algo que podia mudar tudo e que tinha um potencial enorme.

Lembro-me como fosse ontem. O acesso e a partilha de conhecimento sem precedentes que a Internet nos tinha dado, o cada vez menor custo dos materiais, componentes electrónicos, sensores e microcontroladores e o recente aparecimento de uma comunidade global, informada e criativa, sedenta por inovação, com pessoas provenientes do mundo da ciência, das artes, digitais ou tradicionais, foram os elementos catalisadores que deram origem ao que viria a ser conhecido mundialmente como o movimento dos Makers.

No entanto faltava uma coisa fundamental em Portugal: divulgar e partilhar o trabalho desta comunidade, dar palco aos seus protagonistas, amplificar a suas ambições e fazer a ponte com o público em geral, não só para dar a conhecer o seu trabalho mas também para atrair mais pessoas e instituições para o movimento.

Num piscar de olhos, ainda timidamente, criámos os Portuguese Makers Hangouts, uma série de entrevistas em vídeo, feitas ao vivo e transmitidas online, que apresentavam a história e o trabalho de muitos Makers escondidos em Portugal.

Não era suficiente.

Meses depois decidimos que iríamos promover e produzir a primeira Maker Faire em Portugal, era o próximo passo lógico. Conversámos com a Ciência Viva, e da ideia ao concretizar a parceria foram pouco dias, tal era a nossa partilha de visão e determinação para fazer acontecer o evento. Obter a licença da Maker Media também não foi difícil, a proposta de valor era boa e contribuía significativamente para a missão das Maker Faires por todo o mundo.

No Codebits de 2014 anunciámos a primeira Maker Faire em Portugal.

Anúncio da primeira Makerfaire

Em Setembro desse ano e durante 3 dias abrimos as portas ao público no Pavilhão do Conhecimento. As nossas projeções mais otimistas apontavam para 2000 visitas. Tivemos 10000. Ninguém conseguia acreditar na multidão que se juntou para ver os projetos de uma centena de Makers portugueses que viajaram um pouco de todo o lado para se juntarem a este encontro. Apareceram centenas de famílias, escolas e turistas, vieram as televisões e os ilustres, e todos ficaram maravilhados por ficarem a conhecer um mundo novo de criatividade e fazedores que desconheciam existir.

Terminámos exaustos mas felizes, com a sensação de missão cumprida, a melhor do mundo.

Foto da equipa e Makers no fim da Maker Faire Lisbon 2014

Repetimos a Lisbon Maker Faire durante mais dois anos, em 2015 e 2016, sempre com o apoio da Ciência Viva e da Câmara Municipal de Lisboa e de uma mão cheia de patrocinadores e parceiros que se juntaram ao conceito e nos ajudaram materialmente a suportar os custos de produção e divulgação do evento. Os resultados foram sempre bons.

No entanto passaram-se algumas coisas na Maker Faire do ano passado, coisas essas que nos trazem ao principal tema desta conversa:

Em primeiro lugar as nossas vidas mudaram drasticamente e todas ao mesmo tempo. As principais pessoas responsáveis pela organização da Maker Faire Lisbon, na altura equipas da Ciência Viva e do SAPO, entraram em fases novas das suas carreiras profissionais, fases essas que diminuíram a proximidade e a disponibilidade destas.

Em segundo lugar no ano passado sentimos que o formato tinha que mudar porque não obstante o número de visitantes ter sido bom, não estávamos a conseguir atrair mais diversidade de Makers para o evento e a inclusão sempre foi um dos nossos principais objectivos. Ou por outras palavras, começámos a notar uma certa repetição dos projetos, das ideias e do público. O fator novidade não foi tão forte.

E por último, mais importante do que tudo, começámos a sentir que a nossa missão estava cumprida. As coisas fazem sentido no tempo certo. A Maker Faire Lisbon, durante estes três anos, montou o palco e a rampa de lançamento para muitos projetos e Makers em Portugal e gostamos de acreditar que contribuiu para que outras coisas também importantes pudessem acontecer. Por exemplo, é com enorme satisfação que vemos o número de espaços a crescer, um maior envolvimento das escolas e dos jovens, programas de formação, Mini Maker Faires a começarem a aparecer noutras cidades em Portugal.

Como tal, é com um sentimento de tristeza e satisfação ao mesmo tempo que anunciamos que infelizmente não vamos ter Maker Faire Lisbon em 2017.

Não foi uma decisão fácil, mas após muitos meses de ponderação, durante os quais tivemos imensos pedidos e muitas manifestações de ajuda para voltarmos a produzir o evento, esta parece-nos a coisa certa a fazer.

Não estamos a desistir, não nos interpretem mal. Continuamos muito ligados ao movimento, emocionalmente até, e temos ideias sobre o futuro que esta Maker Faire pode ter, como é que pode crescer, surpreender, ajudar mais e ser mais inclusiva, mas por agora faremos uma pequena pausa.

Espero que compreendam.

Aproveito este texto para agradecer a todas as pessoas que durante estes 3 anos fizeram parte da organização deste evento, uns amigos de há muito anos, outros que ficaram a ser. Sei que o que fizeram por prazer e por acreditarem, sei que isso nos trouxe realização pessoal, mas também sei que o trabalho envolvido exigiu níveis de dedicação e esforço brutais, que não são normais, sem qualquer retribuição material, muito pelo contrário. Sem vocês e sem as dezenas de voluntários que tivémos em cada uma da edições, não teria sido possível fazer o que fizémos. E mesmo assim ainda me custa acreditar que tenha sido possível.

Em nome desta equipa agradeço também a todos curadores e aos Makers que passaram pelo evento. Foram centenas, fizeram-no porque quiseram contribuir e foram sempre magníficos. A Maker Faire Lisbon foi feita para vocês, por vocês e é vossa, com orgulho.

Obrigado a todos e até um destes dias.

Celso

Até breve

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